“... [a religião é] um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que, por outro lado, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso. Tudo é tão patentemente infantil tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida. Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e, não obstante isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis atos retrógrados.”
Freud, "O mal-estar na civilização".
Certo, você pode agora ignorar e fingir que nada disso é verdade e o texto acima não tem o menor sentido. E não, não é um afronto direto para quem está satisfeito com sua religião. É somente algo para refletir.
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
UM DIA DE HANK PARTE 03
Virei o resto de vinho que sobrava na garrafa. Olhei ao redor do quarto e só garrafas vazias espalhadas pelo chão. Abri a geladeira e nada além de umas coxas de frango azedas. Abri a carteira e encontrei uns trocados. Vasculhei os bolsos e encontrei mais um pouco. Garantiria mais uma garrafa. Desci as escadas e peguei a avenida principal. Da esquina avistei o mercado. Era por volta de meio dia de sábado e a rua estava movimentada. Dei alguns esbarrões mais nada que me incomodasse tanto quanto o calor. Meu pescoço fritava e eu procurava qualquer sombra pra aliviar daquele sol.
Tentei andar de maneira que não parecesse tão bêbado. Faltavam apenas uns 30 metros .
Na porta do mercado o balconista já avisava: “Nada de fiado companheiro!”
Puxei do bolso os trocados e mostrei a ele. Peguei o vinho mais barato e uns amendoins e voltei para o quarto. Na entrada dei de cara com o vizinho da esquerda. Um sujeito metido a certinho que no fundo eu sabia que não passava de um filho da puta tarado em crianças. Fiz de conta que não vi ele falando comigo e entrei. Abri a garrafa e tomei no gargalo. Já não sentia o sabor do vinho e sim um amargo na língua. Liguei a TV e só passava merda. Não adiantava mudar de canal. Eram tantos e a metade eram religiosos tentando abocanhar o pouco do dinheiro dos desesperados. Desliguei. Tomei mais um trago. Deitei na cama e tudo rodou. Levantei. Resolvi dar uma volta. O quarto estava abafado e úmido. Na saída derrubei o vinho e perdi a metade da garrafa. Uma moradora ficou me olhando com ar de reprovação. Fodasse ela e sua vidinha de merda! Desci as escadas, que ficará mais difícil de descer que da primeira vez. O corrimão me poupou de alguns tombos. Dei de encontro com o sol que não me deu trégua. Virei o resto do vinho. Procurei o bar mais próximo. Fechado. Cruzei a principal e virei a esquerda. Enfim um bar se assim o puder chamar. Não me lembro de ver tantos olhos olhando o vazio como naquela espelunca. No balcão um sujeito me atendeu com uma cara de pouca conversa. Pedi um duplo com aguá. Ninguém se falava. Todos quase que estáticos a não ser pelo movimento de levar o copo a boca. Aumentei a estatística. Pedi outra dose. O ambiente era deprimente. Pouca luz, espelhos já esverdeados nas paredes não refletiam mais nossos rostos, e sim umas imagens disformes e bizarras. A música era indecifrável pois as caixas emitiam mais ruídos que acordes. No canto esquerdo do balcão um cara bateu o copo na mesa e olhou para o teto. Seu rosto era uma mistura de Bogart e Dafoe. Expressão cansada e rugas que lhe tomavam quase que todo o rosto. Pobre sujeito. Na certa perdeu a esposa ou emprego, coisa que comigo não seria motivo de bebedeira. Há tempos só me envolvia com vagabundas e vivia de bicos. Já estava na minha quarta dose quando um sujeito por volta de seus 50 anos entrou e sentou ao meu lado.
- Que dia quente eim.
- Moço, uma cerveja bem gelada!
Olhei e balancei a cabeça.
- Esta no escocês? Putz!
Dei um sorriso amarelo.
Este é meu defeito. Não sei ser simpático nem falso.
- Esta aquecendo para o jogo?
- Escuta cara, o único jogo que gosto é corrida de cavalos. Não sou de muita conversa e so vim aqui pra virar uns tragos ok!
O cara me olhou torto e mudou de lugar.
Se quisesse conversar iria para o bingo fofocar com um monte de velhotas.
Pedi mais um whisky, virei e sai daquela espelunca. O sol tinha maneirado. Olhei o relógio. Aquela merda estava parada a uma semana e eu não tinha tirado. De que me importava a hora, não tinha nada marcado para as próximas 144 horas. Havia conseguido uma entrevista de emprego numa fábrica de alumínio na próxima quinta. Pagavam uma miséria mas estava precisando pagar o aluguel. Eu estava com quase dois meses parado depois de ter saído de uma loja de roupas por ter fodido a filha do gerente.
Precisava urgente de um cigarro. Nada nos bolsos. Nada de dinheiro. Caralho!
O que fazer numa tarde de sol fodido, sem dinheiro, sem cigarro, sem bebida e sem uma boceta pra foder?
Voltei pro quarto e mergulhei na cama.
ATÉ QUANDO???!!!
"Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!
Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer nada"
até quando vai ficar sem fazer nada"
PROPONHO UM BRINDE!
VAMOS CELEBRAR!!!!
"Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...
Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...
Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...
Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...
Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!..."
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!..."
A VISITA CRUEL DO TEMPO
"É essa a realidade, não é?
Vinte anos depois, a sua beleza já
foi para o lixo, especialmente
quando arrancaram fora metade
das suas entranhas.
O tempo é cruel, não é?
Não é assim que se diz?"
domingo, 4 de março de 2012
"Redenção", de Marc Foster, propõe um debate sobre a indiferença
Logo na abertura de Redenção, um letreiro informa que se trata da história de Sam Childers e, no final, o biografado é visto em cenas com a mulher e a filha, ou em seu habitat africano. A história do novo filme de Marc Foster é real, portanto, mas devidamente romantizada por Hollywood.
Numa cena, o personagem, improvisado em pregador, discursa para os fiéis de sua igreja e diz que Deus não quer um rebanho de ovelhas, mas uma matilha de lobos de dentes afiados para lutar contra o mal. O próprio Childers oferece um exemplo radical de redenção. Criminoso, drogado, sexista, o Cavalo Louco, como é chamado, vira crente e dá uma guinada violenta.
Atraído pelo que ouviu de outro pastor, ele vai à África, mais exatamente ao Sudão e se dedica a salvar as crianças que são as grandes vítimas da guerra civil que consome o país. A primeira cena é de massacre numa aldeia. A milícia que serve ao ditador invade o local e promove uma chacina. Um garoto empunha a clave e é forçado a um ato bárbaro. Este garoto voltará no relato, em forma de flash-back. E será ele o agente da transformação definitiva de Childers, daquilo que nem Deus nem o diabo conseguiram.
O filme é produzido e realizado por Marc Foster, produzido e interpretado por Gerard Butler. Ou seja, o envolvimento de ambos é total. Uma organização humanitária, que trata das relações entre EUA e África, monitorou a produção e deu seu aval. Durante todo o tempo, o personagem, mesmo quando usa a palavra - para pregar a verdade do Senhor -, enfatiza a importância da ação. Childers tem urgência. E ele reza na Bíblia daquele padre de O Exorcista, de William Friedkin. Quando o exorcismo falha, o demônio tem de ser expulso a socos do corpo de Regan.
Butler também bate e arrebenta em Redenção. Ao menino que se recusa a falar, ele diz que, às vezes, é preciso se abrir. Quando o menino se abre é para dizer que, por maior que seja o trauma, não se deve ceder ao ódio. Em caso contrário, o diabo terá vencido.
Redenção é um filme romanesco, mais para Diamante de Sangue, de Edward Zwick, do que para Minha Terra, África, de Claire Denis. Com esse último, comunga a ideia de que a humanização dos meninos/soldados é a esperança africana. "Redenção" pode não ser bom de verdade, mas é bom ver Redenção. O trauma do passado, o resgate da infância, a segunda chance, tudo remete a O Caçador de Pipas, também de Marc Foster. São filmes gêmeos e, se o outro é melhor, este não deixa de propor um debate (necessário) sobre a indiferença como mal do século. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Diário Catarinense
Numa cena, o personagem, improvisado em pregador, discursa para os fiéis de sua igreja e diz que Deus não quer um rebanho de ovelhas, mas uma matilha de lobos de dentes afiados para lutar contra o mal. O próprio Childers oferece um exemplo radical de redenção. Criminoso, drogado, sexista, o Cavalo Louco, como é chamado, vira crente e dá uma guinada violenta.
Atraído pelo que ouviu de outro pastor, ele vai à África, mais exatamente ao Sudão e se dedica a salvar as crianças que são as grandes vítimas da guerra civil que consome o país. A primeira cena é de massacre numa aldeia. A milícia que serve ao ditador invade o local e promove uma chacina. Um garoto empunha a clave e é forçado a um ato bárbaro. Este garoto voltará no relato, em forma de flash-back. E será ele o agente da transformação definitiva de Childers, daquilo que nem Deus nem o diabo conseguiram.
O filme é produzido e realizado por Marc Foster, produzido e interpretado por Gerard Butler. Ou seja, o envolvimento de ambos é total. Uma organização humanitária, que trata das relações entre EUA e África, monitorou a produção e deu seu aval. Durante todo o tempo, o personagem, mesmo quando usa a palavra - para pregar a verdade do Senhor -, enfatiza a importância da ação. Childers tem urgência. E ele reza na Bíblia daquele padre de O Exorcista, de William Friedkin. Quando o exorcismo falha, o demônio tem de ser expulso a socos do corpo de Regan.
Butler também bate e arrebenta em Redenção. Ao menino que se recusa a falar, ele diz que, às vezes, é preciso se abrir. Quando o menino se abre é para dizer que, por maior que seja o trauma, não se deve ceder ao ódio. Em caso contrário, o diabo terá vencido.
Redenção é um filme romanesco, mais para Diamante de Sangue, de Edward Zwick, do que para Minha Terra, África, de Claire Denis. Com esse último, comunga a ideia de que a humanização dos meninos/soldados é a esperança africana. "Redenção" pode não ser bom de verdade, mas é bom ver Redenção. O trauma do passado, o resgate da infância, a segunda chance, tudo remete a O Caçador de Pipas, também de Marc Foster. São filmes gêmeos e, se o outro é melhor, este não deixa de propor um debate (necessário) sobre a indiferença como mal do século. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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